sexta-feira, 8 de junho de 2018

(poemas para depois da Revolução)


Troca olhar

Troquei com os olhos dela.
Ela com olhar feroz invadiu meu olhar de fera.
Ela me olhou eu olhei pra ela.
Olhou-me na bolinha, mirei a menina dela.
Eu com olhar feroz, ela com olhos de fera.
Não me intimidei. Ligeiro desviei,
novamente olhei encontrei os olhos dela.
Ela espremeu, o meu esbugalhei.
Ela notou o meu, o dela eu notei.
O dela bem pretinho, o meu avermelhado.
O meu arredondado, o dela bem redondo. 
Seus olhos contornados, grandes cílios esticados.
Eu olhei de frente. Ela olhou de lado.
O dela mostrou frieza, eu que não esfriei.
Troquei com os olhos que eram dela.
No dela que o meu se fez.
A imagem dos olhos dela brilhava nos olhos meus.
Os olhos meu eram dela.
Os olhos dela eram os meus.


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

CHEIRO DE ASFALTO

Dia 25 de Dezembro de 2017.  

A chuva já caía, era final do dia do menino Jesus. Nesse dia bem cedo estava na frente da padaria me preparando para arrumar um trocado, sabia que seria um dia duro, porém lucrativo, pois era hora de aproveitar o espírito de gratidão das pessoas, e, nesse tempo, todo mundo fica mais bonzinho. 

Logo de cara o cheiro do assado anual me agrediu. De onde acordei até a padaria passava por várias casas e percebia que cada uma exalava um cheiro mais delicioso do que a outra. Essa caminhada me fez atrasar para o trabalho, eu diminuía os passos para aproveitar ao máximo dos aromas que vinham dos fornos febris. 

Na padaria também tinham assados. Desses eu gostava mais porque vira e mexe sobrava um tequinho pra mim no final do expediente. Chegando lá recebi um copo com café preto bem fervido que cheirava a queimado, sem problema tomei aos goles, mastigando o pão amanhecido. Logo começou o movimento, o primeiro que estacionara não deu nem uma moeda de cinco, muito menos o segundo, mas o terceiro jogou para cima um real, guardei contente e acenei com a mão. 

Gosto de apreciar o que enfeitam os carros. A maioria tem bichinhos e coisas de time de futebol. Não entendo porquê as pessoas gostam tanto de animais e de futebol. Reparo nas pessoas, também gosto de admirar seus semblantes e gestos, assim, tento criar táticas para convencer o patrão a me recompensar pelo trabalho. São poucos os que dão alguma coisa. 

Um negão gordão do cabelo pra cima sempre dá várias moedas, além de pães e um suco de caixinha. Falou algumas coisas que não entendi, agradeci com um sorriso depois que me estendeu a mão e me chamou de irmão antes de falar uma palavra estranha - kwanza. Nem sei o que é isso, será que é mais um nome que me deu? nem liguei, são tantos os nomes que as pessoas me chamam que já estou acostumado. 

Outro homem branco de cabelo bagunçado e barba mal feita não deu nada, ouvi quando disse para sua patroa: - estamos lutando para que um dia ele não precise de pedir! 
Na cabeça do  rapaz branco de cabelo bagunçado eu estava pedindo, na minha cabeça eu estava trabalhando. O homem aparentava ter trinta, usava uma camisa branca escrita COMUNIST e vi que no banco traseira carregava uma boina preta. Quando engatou a segunda marcha, balançou um enfeite que estava pendurado no espelho do meio do carro, parecia uma balança de cor verde com uma tocha no centro. Depois do COMUNIST aparecerem mais de vinte carros, contribuindo para quase encher meus bolsos de moedas. 

O céu começou a escurecer, a noite chegava, com ela a chuva. O cheiro do assado ainda estava bravo, a barriga até torcia de fome. Fui correndo pro balcão contando as moedas, fiquei sabendo que não tinha mais assado: - Poxa! resmunguei incrédulo. Pedi uma coxinha, o moço banguelo me deu duas e um suco, suco não, refresco. Em vez de um copo ele encheu a garrafa. - Estorei! falei sorrindo. Saí de lá, alegre com as moedas, mas sem comer o delicioso assado.

Chovia, nas ruas não tinha quase ninguém. Eu andava devagar, quase contando os passos, gosto de andar na chuva, parece que me lava a alma. O cheiro do assado não agredia mais, agora o aroma era aquele, mistura de chão e chuva. O suco não tinha mais, nem coxinha. Passei no único boteco que estava aberto, comprei um torresmão e pinga, aguardente é bom para dormir, principalmente quando chove. "deveria voltar pra casa", pensei. Mas que casa, faz tempo que não tenho casa. 

Cheguei na minha calçada preferida, engolir toda pinga de uma vez, senão não faz efeito. Deitei de conchinha comigo mesmo, abraçado à esperança dormi cheirando o asfalto. Sonhei com o cheiro do assado. 

Dia 25 de Dezembro de 2017. 

sábado, 15 de julho de 2017

Armas do genocídio ...

As armas do Genocídio
Vão sair para matar
Vão levar a minha alma 
Pras águas fundas do mar

Hoje a noite me deixar 
Sem direito da saudade
Sem direito de sonhar

Calça larga desbotada
Camisa de gola branca
Que até o mês passado
Lá no gueto ainda era flor

O boné de aba reta 
Um sorriso amarelado
De um rapaz  preto encantado
Com vinte anos de dor

As armas do Genocídio 
Vão sair para matar
Vão levar a minha alma 
Pras águas fundas do mar

Hoje a noite me deixar 
Sem direito da saudade
Sem direito de sonhar

Calça preta ajustada
Camisa de linho branco
Que até o mês passado 
Lá no gueto ainda era flor

A tiara cor da áfrica
Um sorriso amarelado
De uma moça encantada
Com vinte anos de dor. 

Genocídio gela guela. 
Lava-nos daqui ...

(Góes)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O PRETO - A PRETA

O preto é só o preto. A preta é só a preta.
Em determinadas condições foram escravizados
E nessas condições lutou sozinho.

O branco lavou as mãos.
O burguês de sangue, de ouro,
O trabalhador de graxa, das máquinas das indústrias,
O do partido partiu para uma luta bem longínqua,
na Europa.
Chamou o trabalhador do Leste Europeu de camarada.
E deu as costas para o preto, que fora escravizado, no passado.

Quando o preto quebrou as correntes,
Quando a preta quebrou as correntes,
Não mais escravizada olhou pra cima
Olhou pro lado.
E só enxergou pretos
E só enxergou pretas.

O branco lavou as mãos,
De sangue, de graxa das máquinas.

Quando pretos e pretas fizeram rebelião,
ergueu Quilombos
Quilombo cresceu
Quilombo armou, espaço seus.
Seu que não fora só seu:
branco veio; veio indígena; veio judeu.

O preta,
A preta
não lavaram as mãos.

Mas o branco lavou as mãos:
de graxa; de sangue; de ouro; de água benta; do gelo do chá do leste europeu; de cobre;
de papelão; da tinta vermelha que pinta a foice e o martelo; do estupro;
do racismo; da discriminação; do preconceito.

Porque o preto é só o preto. A preta é só a presta.
Que em determinadas condições foram escravizados, foram escravizadas.
E nestas condições lutou sozinho.
E lutamos até hoje ...

Paraíso dos adultos

Uma hora você xinga
E acha que é normal

Outra hora você dá um grito
Acha que merece, é só um gritinho

Depois você sacode
Porque tem que mostrar quem é que manda

Logo após dá um tapinha, um beliscão
aperta a mão, puxa o cabelo para impor respeito

Assim, sempre que se achar desrespeitado
Você dá um tapa, dá uma cintada
Bate com vassoura, coloca de castigo

Você se acha no direito de espancar
Porque você se acha superior

Você enforca, joga pela janela, dá tiro
Dá facada, dá veneno

Humilha, enterra
Porque você se acha superior

Ser criança é padecer no paraíso dos adultos

Está na hora de repensar nossa atitude com a infância ...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Pão e Água Inglesa - um mini conto da vida de muitas ...

A casa estava escura, pela fresta da janela entrara um fecho de Sol. Como era tarde, por volta de uma hora, eu estranhei o silêncio. Entrei com meus passos leves, com cuidado de não fazer barulho. Não queria incomodar mamãe que estava de cama por três dias. Sentei na cama que estalou, fiz careta para mim. Puxei o tênis amarelo de sujeira do chão e junto o meião fedorento. Levantei nas pontinhas dos pés descalços arranhando as unhas amarelas do dedão no assoalho.
- Tú chegou?
- Sim maiê!
- Preciso que compre uma coisa!
Estava com receio de ir no quarto, corri para o banheiro e liguei o chuveiro de água fria. Pensei na vida por 15 minutos ou mais. Enxuguei-me, vesti a mesma roupa suada, puxei a água do chão com o rodo e fui à cozinha lavar a louça.
- Vem aqui! Disse mamãe.
- Já vou maiê! Respondi baixinho.
Agora! Replicou. Eu fui.
No quarto escuro, a cama de casal com lençol vermelho que não dava para ver com precisão, do lado direito da cama tinha um berço, onde dormira a menininha, no outro canto um cesto com roupas. No pé da cama eu vi um bolo de pano, como se fossem fraudas, uma três, emboladas no chão de taco. Olhei com olhos baixos e percebi que tinham manchas de sangue. Olhei mamãe no rosto, seu sorriso relâmpago me fez bico, entreguei-lhe o rosto, o beijo de todos os dias estava frio e tenso, senti que me beijou rápido, com pressa e nem me afagou os cabelos crespos. Mal pegou na minha mão. Olhei nos seus olhos, os vi fundos, com remelas e vermelhos, pensei pra mim “maiê chorou e muito”, fui descendo o olhar, ela vestia uma camisola que depois vi que era bege, cobria todo o corpo e as pernas, tinha nos pés meias grossas, voltei pro rosto, sorri tristonho, seus olhos brilharam. Ela sabia que eu sabia.
- quer café maiê?
- Não, não. Quero que vá á farmácia, tá? Passa na padaria, também!
Pensei pra mim: “maiê não nega meu café, ela não está bem”.
- Fio. Compre na farmácia Água Inglesa, mas fique esperto, não quero que ninguém veja, fale baixinho para o seu Luíde, se ele perguntar pra quem é, diga que é para uma vizinha. Não leia nada, não tire do saquinho.
- Um! Disse eu.
- Ah, continuou mamãe, com o que sobrar tu compra pão, meu fio deve está com fome.
Não queria sair do quarto, senti mamãe na solidão, e que algo não estava normal. Sentei na cama e comecei a falar do treino. Ela me olhava com cara de dor, mas tentava sorrir. Quando terminei a resenha ela disse: - A Água Inglesa!
Levantei, dei um passo para trás, senti que a tal água era coisa que mamãe precisava, me convenci que teria que ser logo. Fui com pressa.
No caminho senti tristeza, três dias que ela estava neste estado. Nem foi trabalhar, na noite anterior discutiu com o pai. Ele dizia que era problema dela, que não foi culpa dele e que ele não queria mais. Ela soluçava abafado para ninguém ouvi. Não conseguia entender como as coisas mudaram de um dia para o outro. Ontem estávamos todos felizes, comemorando o aniversário da menininha, depois todos tristes, mamãe três dias no quarto escuro e pai sumiu.
Quando pedi a água o Luíde farmacêutico olhou bem nos meus olhos e perguntou:
- Pra que diacho você quer isto rapaz? Essa coisa não te serve.
- É para uma senhora, ela pediu para comprar! Respondi alto e mau criado.
- Vou te vender, mas quero saber quem está com pouca vergonha! Disse o velho grisalho.
- Tenho ordens para não dizer, por favor, estou com apressado! Retruquei.
O caminho parecia eterno, comprei os pães com o troco e corri para casa. Minha cabeça formigava, parecia que tinha borboletas no cérebro, a imagem daquela senhora jogada na cama, no quarto escuro, suas olheiras e as fraudas com sangue me perturbavam. Cada vez que me aproximava meu coração apertava.
Chegando em casa cumpri o ritual. Passos lentos e calmos, quando estava na sala ouvi a voz de pai: - Por que você faz estas coisas mulher!? Não disse que era perigoso?
Mamãe só chorava. – Está doendo! Disse aos prantos.
- Não podemos ir ao hospital! Retrucou o pai.
Adentrei o quarto, meus olhos foram diretos para o chão, tinha mais panos brancos e mais sangue.
- Me dá! Disse o veio sem me cumprimentar.
Estendi o braço e entreguei o pacote. – Vai comer! Faz chá! Tornou a falar sem olhar pra mim.
Antes de sair sorri para mamãe, que tentava disfarçar os prantos, antes de retornar olhei para o pai, coisa de pouco costume. Pela primeira vez a feição dela me assustara. Nos seus olhos existiam grandes contornos roxos, as pupilas estavam bem vermelhas, suas gordas maçãs caíra assustadoramente. Senti meu coração gelado. Ele me olhou de lado. Pela primeira vez o vi fraco.
Corri para o quintal comendo pão. Um amigo me chamou para ir com ele ao mercado. Senti que deveria sair.
Quando retornei não encontrei mamãe nem o pai. Só meus irmãos e duas vizinhas. Perguntei por ela, disseram que estava no hospital e que não voltaria para casa naquela noite.
Só a vi três dias depois.
Parecia mais triste do que antes, mas não tinha olheiras. Seu rosto estava melhor, os olhos não estavam vermelhos. Pensei comigo: “maiê dormiu”. Ela fez bico, entreguei-lhe o rosto, ganhei um beijo quente e demorado, e também um abraço. Disse que me amava. Neste dia dormi mais confortável e até hoje tenho medo de precisar comprar Água Inglesa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sonho do Altanero

Altanero ajudante de pedreiro
Passava o dia inteiro trabalhando sem parar.
Fazia massa, subia o concreto, rebocava o teto vendo o Sol se mandar.

Toda noite parava no boteco, bebia até o resto, falava sem parar.

Ia pra casa, andando balançando,
deitava em qualquer canto, 
dormia sem jantar.

No outro dia, antes do Sol chegar já estava de pé
passando seu café, pronto pra trabalhar.

Altanero, não incomoda ninguém e tudo que ele tem nem dá para somar:
um casal de sabiá; um lençol; um patoá; uma toalha de banho; um rádio no celular.

Mas, Altanero um dia se estressou pro ar tudo jogou e começou a reclamar.
Já no trabalho, brigava com o patrão, 
queria divisão do pão com todos que estavam lá.

Olhava sereno pros rostos das crianças, 
no cabelo fez-se tranças e soltou o sabiá.

Lá no boteco,
falava de política, do preço da marmita, mandinga e saravá.
E seus parceiros não entendiam: - Qual é? 
Defendendo a mulher que todos queriam zombar?

O Altanero, 
falava em Rebelião, Motim, Revolução
pra essa vida mudar!

Um triste dia,
de frio e muita chuva, corria o boato que os homens estavam lá.

Foi encontrado, triste e torturado, com os olhos esbugalhados, 
sem vontade de falar. 

Altanero,
sonhou com o mundo inteiro, livre do dinheiro, sem fome e sem patrão.
Passou desta, sem glória e sem festa.
Sabendo que só resta é a tal exploração.

Góes ...outubro de 2015