segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

CHEIRO DE ASFALTO

Dia 25 de Dezembro de 2017.  

A chuva já caía, era final do dia do menino Jesus. Nesse dia bem cedo estava na frente da padaria me preparando para arrumar um trocado, sabia que seria um dia duro, porém lucrativo, pois era hora de aproveitar o espírito de gratidão das pessoas, e, nesse tempo, todo mundo fica mais bonzinho. 

Logo de cara o cheiro do assado anual me agrediu. De onde acordei até a padaria passava por várias casas e percebia que cada uma exalava um cheiro mais delicioso do que a outra. Essa caminhada me fez atrasar para o trabalho, eu diminuía os passos para aproveitar ao máximo dos aromas que vinham dos fornos febris. 

Na padaria também tinham assados. Desses eu gostava mais porque vira e mexe sobrava um tequinho pra mim no final do expediente. Chegando lá recebi um copo com café preto bem fervido que cheirava a queimado, sem problema tomei aos goles, mastigando o pão amanhecido. Logo começou o movimento, o primeiro que estacionara não deu nem uma moeda de cinco, muito menos o segundo, mas o terceiro jogou para cima um real, guardei contente e acenei com a mão. 

Gosto de apreciar o que enfeitam os carros. A maioria tem bichinhos e coisas de time de futebol. Não entendo porquê as pessoas gostam tanto de animais e de futebol. Reparo nas pessoas, também gosto de admirar seus semblantes e gestos, assim, tento criar táticas para convencer o patrão a me recompensar pelo trabalho. São poucos os que dão alguma coisa. 

Um negão gordão do cabelo pra cima sempre dá várias moedas, além de pães e um suco de caixinha. Falou algumas coisas que não entendi, agradeci com um sorriso depois que me estendeu a mão e me chamou de irmão antes de falar uma palavra estranha - kwanza. Nem sei o que é isso, será que é mais um nome que me deu? nem liguei, são tantos os nomes que as pessoas me chamam que já estou acostumado. 

Outro homem branco de cabelo bagunçado e barba mal feita não deu nada, ouvi quando disse para sua patroa: - estamos lutando para que um dia ele não precise de pedir! 
Na cabeça do  rapaz branco de cabelo bagunçado eu estava pedindo, na minha cabeça eu estava trabalhando. O homem aparentava ter trinta, usava uma camisa branca escrita COMUNIST e vi que no banco traseira carregava uma boina preta. Quando engatou a segunda marcha, balançou um enfeite que estava pendurado no espelho do meio do carro, parecia uma balança de cor verde com uma tocha no centro. Depois do COMUNIST aparecerem mais de vinte carros, contribuindo para quase encher meus bolsos de moedas. 

O céu começou a escurecer, a noite chegava, com ela a chuva. O cheiro do assado ainda estava bravo, a barriga até torcia de fome. Fui correndo pro balcão contando as moedas, fiquei sabendo que não tinha mais assado: - Poxa! resmunguei incrédulo. Pedi uma coxinha, o moço banguelo me deu duas e um suco, suco não, refresco. Em vez de um copo ele encheu a garrafa. - Estorei! falei sorrindo. Saí de lá, alegre com as moedas, mas sem comer o delicioso assado.

Chovia, nas ruas não tinha quase ninguém. Eu andava devagar, quase contando os passos, gosto de andar na chuva, parece que me lava a alma. O cheiro do assado não agredia mais, agora o aroma era aquele, mistura de chão e chuva. O suco não tinha mais, nem coxinha. Passei no único boteco que estava aberto, comprei um torresmão e pinga, aguardente é bom para dormir, principalmente quando chove. "deveria voltar pra casa", pensei. Mas que casa, faz tempo que não tenho casa. 

Cheguei na minha calçada preferida, engolir toda pinga de uma vez, senão não faz efeito. Deitei de conchinha comigo mesmo, abraçado à esperança dormi cheirando o asfalto. Sonhei com o cheiro do assado. 

Dia 25 de Dezembro de 2017. 

sábado, 15 de julho de 2017

Armas do genocídio ...

As armas do Genocídio
Vão sair para matar
Vão levar a minha alma 
Pras águas fundas do mar

Hoje a noite me deixar 
Sem direito da saudade
Sem direito de sonhar

Calça larga desbotada
Camisa de gola branca
Que até o mês passado
Lá no gueto ainda era flor

O boné de aba reta 
Um sorriso amarelado
De um rapaz  preto encantado
Com vinte anos de dor

As armas do Genocídio 
Vão sair para matar
Vão levar a minha alma 
Pras águas fundas do mar

Hoje a noite me deixar 
Sem direito da saudade
Sem direito de sonhar

Calça preta ajustada
Camisa de linho branco
Que até o mês passado 
Lá no gueto ainda era flor

A tiara cor da áfrica
Um sorriso amarelado
De uma moça encantada
Com vinte anos de dor. 

Genocídio gela guela. 
Lava-nos daqui ...

(Góes)