quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Quanto vale o poema

Quanto vale?
As letras transgressoras
Quanto vale?
As palavras infratoras
Quanto vale?

Quanto vale?
os parágrafos mal desenhados.
Quanto vale?
As frases inacabadas.

Quanto?
Quanto é a vida do poeta?
Humilhado pelas entranhas da sociedade.
Quanto vale?
Obrigado, estimulado, obcecado a escrever
pintar, borrar, coisas indevidas.
Quanto Vale?

As lágrimas sangradas.
Quanto vale?
o suor sem nada.
Quanto vale?
As pupilas dilatadas,
Das mentes embriagadas nas dores da madrugada?

Quanto vale?
Estrofes safadas,
Inculta, marginalizadas

Quanto vale?
Canetas, lápis, giz, sem nada
Quantos valem nada,

Quanto? Quantos?
Quanto: vale a vida...
do poeta.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A UM POETA

Tu que dormes, espírito sereno,

Posto à sombra dos cedros seculares,

Como um levita à sombra dos altares,

Longe da luta e do fragor terreno.


Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno.

Afugentou as larvas tumulares...

Para surgir do seio desses mares

Um mundo novo espera só um aceno...


Escuta! É a grande voz das multidões!

São teus irmãos, que se erguem! São canções...

Mas de guerra... e são vozes de rebate!


Ergue-te, pois, soldado do Futuro,

E dos raios de luz do sonho puro,

Sonhador, faze espada de combate!


(Antero de Quental)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Bala na agulha

Visto como periculoso. Refletia a imagem no retrovisor do carro, um gesto cruel: subir o vidro imediatamente. Na fila pro Metrô prendiam firmes as bolsas aos subacos. Queria uma ou duas moedas. – Hoje eu como sanduíche de mortadela, pensou alto. “Queria ter um carro e um tênis de marca.” Quantas vezes na madrugada pulava o muro. A mão trêmula estendida, dedos curtos, unha suja, ofegante.

Todos os dias a perseguição, guarda, segurança, vigilante. “Não agüento mais.” Para baixo e para cima aprontando, com o dom de dar “pião” nas autoridades. “Atrevido, até na Vila faz isto!” resmungou a tia da bomboniere.

Não. Jogar bola nem pensar, escola jamais, não sabe o significado da palavra brincar. Seu negócio é aprontar, assustar a nobreza. Uma mulher branca o cruzava quase todos os dias no centro da cidade em horário de almoço. Com a bolsa de coro colada ao corpo, tremendo os lábios finos e rosados, apressada feit0 mula manca equilibrando-se no Luíz Quinze. O suor gelado queimava a maquiagem. Rotineiros cinco minutos de inferno astral. Quase morre de congestão. “Não é para tanto!”, resmunga o transeunte.

Uma velhinha triste com profundas olheiras, largada ao pontilhão, na mão uma canequinha de alumínio. Uma moedinha de dez centavos, plimm, o som da penitência. A donzela respirou aliviada.

No dia de Natal levou para casa um panetone de meio quilo, foi a tremenda festa. A mãe, faxineira de uma escola pública, assistia ao banquete pensativa. Todos os filhos com menos de quatorze anos. Faltava-lhe a ela auto estima, não se atreve a degustar, sabia de onde vinha a presa. Ele, rapidamente, engoliu um pedaço, tomou um gole de suco, se despediu com sorriso hepático.

Queria sair desta dura rotina. O aroma perverso do frango assado na padaria causava-lhe sensações adversas àquelas do Metrô, centro da cidade, a careta da tiazinha da bomboniere.

Sempre retorna tarde ao lar. O sereno da noite deixa arrepiados os bracinhos desprotegidos. Desce a ruela escorregadia. Segue uma viela de terra. O latido do cachorro mistura-se às sinfonias dos gafanhotos e sapos, o vento gelado no rosto provoca espirros. Adentra o corredor entre madeirites, pula o cercado para encurtar o caminho.

A voz rouca pede a benção. – Hoje rendeu! Recebeu da mãe um prato de arroz e uma blusa limpa, sentou-se ao colchão, descansa encima da mesa uma caixa de papelão, “deliciosas balas de goma”.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Sapatinho na janela

Era dezembro. As árvores enfloravam. As pessoas montavam pinheiros artificiais, bolinhas coloridas e pequenas lâmpadas davam a impressão de inverno. Da porta pra fora o Sol mandava os raios quentes, ao meio dia cabeças queimavam, nos rostos derretia o suor. O corre-corre era geral, nos grandes centros pessoas aglomeravam-se em volta das barracas, balcões e vitrines. Aquele que possuía o recurso carregava várias sacolas. Nas periferias o asfalto queimava os pés descalços da galerinha, o pipa rasgando o céu com sua rabiola colorida, bola rolando na rua de terra. O filho carrega duas garrafas do líquido insalubre. O pai pega, da-lhe uma moeda e se refresca:
- AAAAAAAHHHHHSSSSSS! Que geladinhaaaa.

No canto da sala Dininha sentada com a bunda no chão. Na mão esquerda um lápis, com a outra mão rabiscava. Seus olhos pretos redondos ,como bolinha de gude, atentos ao papel branco.

Da porta pra fora a euforia toma conta da população. No barzinho da esquina a brasa sapeca um pedaço de carne, na grelha improvisada também tem lingüiça apimentada, aza de frango e coro de toucinho. A fumaça instigava o estômago da mulecada, dois ou três cachorros ficavam a espreita rodeando a mesa de plástico amarelo. Em volta da mesa quadrada ficavam sempre duas duplas que se digladiavam amigavelmente no jogo de dominó. Do balcão sai os mais diversificados líquidos assassinos.

O céu começa a escurecer, o Sol se despede. A noite quente é coberta pelas nuvens carregadas, o odor da cebola faz a mãe chorar, o pai comanda o controle remoto, sai do banheiro o menininho barrigudinho com a toalha enrolada, pingando água do cabelo crespo. Na cadeira de madeira estava Dininha. Lápis na mão, papel de pão apoiado na mesa, seu nariz largo sugava o cheiro da cebola, a boca carnuda resmungava palavras em segredo, enquanto rabiscava.

No dia seguinte quase tudo se repete, o pai veste a roupa, tira o pó do sapado preto, põe a marmita na bolsinha, corre para o ponto de ônibus. Dininha chega com a bengala, o cabelo crespo meio amarelo, na cabeça redonda uma tiara, o nariz largo sente aroma do café fresco, na boca carnuda ainda tinha alguns dentes de leite, coloca a bengala em cima da mesa, os olhos pretos e redondos como bolinha de gude mira no papel de pão, a menina desenrola o alimento.

Da porta pra fora crianças correm e gritam pelo quarteirão, falta água, o calor é intenso. Os molequinhos comemoram:
- Viva. Hoje não vai ter aula.
- queria que tivesse aula. Hoje é dia de pão com salsinha. O outro lamenta.
Espalha-se o boato de que a diretora mandou distribuir a merenda. Todas as atenções se voltam para a escola.

As casas já estão enfeitadas, pisca pisca, bolinhas coloridas, mensagens de paz pelas portas. No fim da tarde as nuvens amontoam-se por cima das cabeças, no bar não tem ninguém, o dominó está lá, guardadinho na caixinha, o dono do bar desce o toldo, pingos d’aguas desmancham os pipas, a mulecada enrola a linha na lata de óleo, mulheres e crianças rapam o varal, janelas são fechadas e logo cai a noite.

Na madrugada um gritão: Filinha apaga a luz!!! Dininha está atenta, com os cabelos crespos amarelados cobertos com um pedaço de meia calça, os olhos redondos estão avermelhados, o braço fino guarda a folha de papel e o lápis. Aspira bem fundo pelo nariz largo o odor fresco da chuva, respira pela boca carnuda, com o dedinho curtinho e unha pintada de bege, apaga a luz.

De manhã o Sol invade a casa pela janela. Os raios queimam a testa franzida da pequeninha. O pedaço de meia calça se perde no quarto deixando livre o cabelo crespo amarelado. Esfrega com a mãozinha, de unhas beges, os olhos pretos e redondos como bolinha de gude, em seguida limpa o nariz largo. Na boca carnuda ainda tem baba. Seu corpo magricelo dispensa o cobertor. O braço fininho estica até a gaveta, pega o lápis e o papel. Vira de bruço e continua a escrever.

A canção natalina toma conta da vizinhança. Dininha atenta ao calendário passa a escrever mais rápido. Dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Escreve sem parar. São varias folhas de papel branco.

Da porta pra fora tem confusão, os meninos se estranham, as pessoas se amontoam, forma uma roda, os corpos se enroscam. Da multidão surge um outro com algo na mão, as pessoas se desesperam, corre gente pra todo lado, derrepente o pipoco... Em segundos some todo mundo, ninguém viu nada. A mulher com bobes na cabeça berra aos prantos: meu filho, meu filho. Dois dias depois o sepultamento.

São férias, não tem mais aula. “Ufa! Só no ano que vem”. Alguns viajam, a maioria fica por lá mesmo. Ocupar os filhos é a tarefa principal das mamães. O clima na vila não é tão bom. O medo se mistura com o otimismo, apesar de tudo ainda se escuta: “dias melhores virão”.

A menina parece triste, o pai chega suado, carrega duas sacolas vermelhas lotada. Veste na cabeça um boné vermelho com letras pequenas. O rosto esticado acomoda as rugas e a barba com mexas brancas. A menina olha bem o pai. Pensa em jogar fora o rascunho, mas decide esperar o anoitecer. Ganha um vestido branco, para os outros têm calça e camisa. Seu sorriso dente de leite não amarela.

Da porta pra fora as pessoas se abraçam. A vizinha que negou por nove vezes uma caneca de açúcar foi perdoada. Recebe um apertão da chamada fofoqueira, as duas brigaram vinte e oito vezes durante o ano todo. Agora prometem tréguas, perante aos céus fazem jura de paz eterna, como no ano passado. Criançada ataca biribinha ao chão. Pelos cantos choraminga aquela que perdeu seu filho há pouco.

O maior amigo do homem é o saca-rolhas, a mulecada enxuga dois, três, quatro, cinco litros do suave. – se moscá nóis dorme aqui mesmo! Sussurra o páfrentão.

A menina mira o céu, olhos pretos perseguem as estrelas cadentes. Ainda tem gente voltando do trabalho. No ponto de ônibus do centro da cidade, o tal demora horas, quem espera está de cara feia. Surge um menino aos trapos, pés no chão em noite serena. Escorre ligeiramente o catarro do nariz, esfrega o braço deixando rastro pelo rosto.
- Tia dá cinco centavos. Num tenho não. Tio dá dez centavos. Num tenho. Ti... Não. Dá cinco... Não. Dá... Tem não. Parte o pirralho decepcionado. Um trabalhador bigodudo começa o bate papo:
- Os muleques de hoje perdeu a vergonha mesmo!
O outro que trajava uma calça azul, portava uma sacola. Dentro da sacola, acomodado, estava o pão de frutas. Este questiona:
- Os muleques perderam a vergonha ou foram os pais que perderam a vergonha?
O bigodudo traga ferozmente o cigarro, sopra pro ar, a fumaça flutua em redemoinhos. Logo diz:
- No meu tempo não era assim, agente fazia qualquer coisa, tinha vergonha de pedir. Carregava caixa, olhava carro... Quando crescer fica pior!
O amigo responde de bate pronto:
- Isso é. Se crescer!
Uma mulher balançava a cabeça em sinal de apoio, enquanto o inocente evaporava no tempo feito fumaça de cigarro.

Todo mundo cantou dingobel, a mãe da Dininha corre pro quarto. Vê que a menina adormeceu no pé da janela, parece que desistiu da visita do trenó. Acomodou sua filha na cama, cobriu com uma manta vermelha. Tira do sereno uma caixa de sapato, dentro estava a carta enrolada. Lê com dificuldade o cabeçário: “Querido papai...” demora um pouco. Depois de cinco minutos termina a leitura. Chorando enxerga embaçada as últimas letras: “... traz pra minha mãe paz, saúde e um feliz...”.