sexta-feira, 13 de março de 2009

Bala na agulha

Visto como periculoso. Refletia a imagem no retrovisor do carro, um gesto cruel: subir o vidro imediatamente. Na fila pro Metrô prendiam firmes as bolsas aos subacos. Queria uma ou duas moedas. – Hoje eu como sanduíche de mortadela, pensou alto. “Queria ter um carro e um tênis de marca.” Quantas vezes na madrugada pulava o muro. A mão trêmula estendida, dedos curtos, unha suja, ofegante.

Todos os dias a perseguição, guarda, segurança, vigilante. “Não agüento mais.” Para baixo e para cima aprontando, com o dom de dar “pião” nas autoridades. “Atrevido, até na Vila faz isto!” resmungou a tia da bomboniere.

Não. Jogar bola nem pensar, escola jamais, não sabe o significado da palavra brincar. Seu negócio é aprontar, assustar a nobreza. Uma mulher branca o cruzava quase todos os dias no centro da cidade em horário de almoço. Com a bolsa de coro colada ao corpo, tremendo os lábios finos e rosados, apressada feit0 mula manca equilibrando-se no Luíz Quinze. O suor gelado queimava a maquiagem. Rotineiros cinco minutos de inferno astral. Quase morre de congestão. “Não é para tanto!”, resmunga o transeunte.

Uma velhinha triste com profundas olheiras, largada ao pontilhão, na mão uma canequinha de alumínio. Uma moedinha de dez centavos, plimm, o som da penitência. A donzela respirou aliviada.

No dia de Natal levou para casa um panetone de meio quilo, foi a tremenda festa. A mãe, faxineira de uma escola pública, assistia ao banquete pensativa. Todos os filhos com menos de quatorze anos. Faltava-lhe a ela auto estima, não se atreve a degustar, sabia de onde vinha a presa. Ele, rapidamente, engoliu um pedaço, tomou um gole de suco, se despediu com sorriso hepático.

Queria sair desta dura rotina. O aroma perverso do frango assado na padaria causava-lhe sensações adversas àquelas do Metrô, centro da cidade, a careta da tiazinha da bomboniere.

Sempre retorna tarde ao lar. O sereno da noite deixa arrepiados os bracinhos desprotegidos. Desce a ruela escorregadia. Segue uma viela de terra. O latido do cachorro mistura-se às sinfonias dos gafanhotos e sapos, o vento gelado no rosto provoca espirros. Adentra o corredor entre madeirites, pula o cercado para encurtar o caminho.

A voz rouca pede a benção. – Hoje rendeu! Recebeu da mãe um prato de arroz e uma blusa limpa, sentou-se ao colchão, descansa encima da mesa uma caixa de papelão, “deliciosas balas de goma”.